(31) 3235-8100

contato@amarilfranklin.com.br

noticiaNOTÍCIAS

"Situação fiscal é muito frágil na região"

Para Végh, América Latina deve enfrentar dilema entre subir juro para proteger a moeda ou ter taxa baixa para crescer

Entrevista com Carlos Végh, economista-chefe do Banco Mundial para América Latina e Caribe

Adriana Fernandes e Fernando Nakagawa, O Estado de S.Paulo

25 Junho 2018 | 05h00

BRASILIA - Não é só o Brasil que vive dias difíceis nas contas públicas. Os problemas fiscais se espalharam pela América Latina após um período de gastança. “A situação fiscal é muito frágil. É um grande desafio macro que a região enfrenta hoje”, diz Carlos Végh, economista-chefe do Banco Mundial para América Latina e Caribe. O uruguaio alerta ainda que outro problema aparece diante dos juros em alta nos Estados Unidos: vários países devem enfrentar o dilema entre subir o juro para proteger a moeda ou manter taxas baixas que ajudam o crescimento.

Como está hoje o quadro fiscal dos países da América Latina?

A situação fiscal é muito frágil. É um grande desafio macro que a região enfrenta hoje. Pense que 31 entre 32 países tiveram déficit nominal em 2017 (a Ilha Granada foi a única com resultado positivo), 53% deles (17) com déficit primário. A dívida é também alta para países em desenvolvimento. O fato é que os déficits fiscais continuam a alimentar a dívida dos países da região, que está agora em 57,6% do PIB.

O relatório mostra que a situação fiscal é pior nos países da América do Sul do que no México, Caribe e América. Por quê?

O déficit fiscal médio para a região é de 2,4% do PIB. Mas na América do Sul é 4%, mais que o dobro que em México, Caribe e América (1,9%). O fato é que muitos países desse último grupo mostram um superávit primário, o que é mais raro entre os da América do Sul. Vários fatores contribuíram para a deterioração fiscal na América do Sul. Mas a maioria dos governos não conseguiu poupar o suficiente durante a “Década de Ouro” de 2003 a 2012, quando os preços das commodities eram extremamente altos e, em vez disso, gastavam a maior parte do lucro. Alguns dos gastos foram sem dúvida importantes para melhorar as condições sociais. Mas um princípio fundamental das finanças públicas é que as despesas permanentes só devem ser financiadas por aumentos permanentes em receitas. Aumentar gastos permanentes com receitas temporárias certamente semeou os problemas fiscais futuros. Há pouca dúvida de que os países devem se engajar em ajustes já.

Qual o custo do ajuste?

O custo do ajuste feito com choque é muito maior. Nossa recomendação é que ele seja gradual. Isso não significa não fazer ajuste fiscal. Você sabe que as pessoas na Argentina atribuem a situação atual à decisão do presidente Macri de fazer um ajuste fiscal gradual em vez de um choque. Acho que foi uma escolha correta da parte dele. O que está acontecendo na Argentina não é resultado de ter havido ajuste fiscal gradual ou choque. É basicamente não ter um ajuste fiscal.

Os argentinos não estão fazendo ajuste?

Não. O problema não é o ajuste gradual. É a falta dele. Agora, com o acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), eles têm uma agenda para reduzir o déficit fiscal de maneira bem gradual.

E nos outros países como está a situação?

Alguns países estão fazendo ajustes fiscais graduais e sérios, como Colômbia, México. E outros países claramente precisam fazer mais.

Qual o risco do aumento dos juros nos EUA?

A normalização da política monetária finalmente está aqui após três anos se ouvindo falar dela. Isso significa que o dólar ganha força e fará com que aumente o custo de crédito dos países da América Latina. Entramos no que chamamos de dilema de política monetária que a maioria dos bancos centrais da região vão enfrentar. Como as moedas ficarão mais fracas, em geral a economia começa a crescer mais devagar. Então, se tem o grande dilema: devo aumentar a taxa de juros para se defender apesar do possível custo para a economia?

Os países estão passando por esse dilema agora?

Isso tem sido a história da América Latina nos 20 ou 30 anos. O dilema: o que você faz? Aumenta a taxa de juros para se proteger ou você faz como o Chile que tem baixa taxa de juros. Eles dizem, no Chile, que não há problema com a depreciação (cambial) de 10% ou 15%. O país tem muita credibilidade, o capital não vai sair do país e eles optam por manter a taxa de juros baixa para estimular a economia, mesmo se houver um pouco mais de depreciação. Se você olhar as evidências, a maioria dos demais países, como México, Brasil, Uruguai e Argentina, escolhem defender a taxa de câmbio aumentando os juros.

O que o sr. acha que vai acontecer no Brasil?

É difícil dizer. Todo banco central define qual deve ser a sua prioridade. Mas não há dúvidas de que nos próximos seis, oito meses ou talvez mais, muitos bancos centrais vão enfrentar esse dilema. Olhe o México. Eles tinham plano de reduzir a taxa de juros. Mas, por causa do Nafta, das incertezas políticas e outros fatores, eles decidiram aumentar. Eu acho que os bancos centrais vão literalmente, de reunião em reunião, enfrentar essa situação.

Está faltando credibilidade para esses países?

Não acho que é falta de credibilidade. É mais um ambiente externo difícil. Há incertezas políticas em muitos países. Há incerteza em relação à normalização monetária nos EUA e agora vai começar na Europa. Especialmente no front monetário, a maioria dos países está fazendo um trabalho bom. Pense no fato de que a taxa de inflação média, excluindo Venezuela, está em torno de 3%. Isso é inacreditável. A taxa média de inflação era em torno de 200% nos anos 90. Os bancos centrais vão fazer o que acharem que é o melhor e minha aposta é que eles vão fazer o que é certo. A parte fiscal é um pouco mais frágil. Na Argentina, é claro, Uruguai também...

No Brasil também?

Sim. No Brasil também.

Publicado em Notícia

BC sinaliza mais um corte 'moderado' de juro em maio e fim do ciclo de redução

Segundo o BC, somente 'mudanças adicionais relevantes' no cenário levariam a um novo corte da taxa Selic na reunião subsequente do Copom, em meados de junho.

Por Alexandro Martello, G1, Brasília

27/03/2018 08h23 Atualizado há menos de 1 minuto

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central indicou nesta terça-feira (27), por meio da ata de sua última reunião, quando os juros recuaram para a mínima histórica de 6,5% ao ano, que deve promover um novo corte de juros em maio e que, depois, deve encerrar o ciclo de redução da taxa Selic - iniciado em outubro de 2016.

No documento, o BC informou que decidiu sinalizar que, para a próxima reunião, em maio, uma "flexibilização monetária moderada adicional" (corte de juros) se mostra "adequada sob a ótica atual". A expectativa é de que a instituição promova uma nova redução de 0,25 ponto percentual, para 6,25% ao ano.

Além disso, o Banco Central acrescentou que, para a reunião seguinte do Copom, em junho deste ano, quando as decisões sobre a taxa de juros já terão os efeitos "majoritariamente concentrados no ano-calendário de 2019", deverá se mostrar "apropriado interromper o processo de flexibilização monetária", ou seja, de redução da taxa básica da economia.

A instituição acrescentou, ainda, que essa visão de que seria adequado interromper o processo de queda dos juros a partir de junho deve ser implementada a não ser que ocorram "mudanças adicionais relevantes no cenário básico e no balanço de riscos para a inflação".

Riscos

O Copom avaliou que medidas de inflação situam-se em níveis baixos e que, dessa forma, constituem-se risco "baixista para a trajetória prospectiva para a inflação", que poderia ficar abaixo da meta central de 4,5%.

Acrescentou que, por outro lado, permanecem a expectativa de que a "recuperação da atividade econômica" contribua para elevação da inflação rumo às metas no horizonte relevante (em até 24 meses) e os riscos associados a um "revés no cenário internacional num contexto de frustração das expectativas sobre as reformas e ajustes necessários na economia brasileira".

Por fim, o BC compeltou avaliando que "deve balancear essas duas dimensões", tendo em vista a defasagem do impacto das decisões sobre a taxa de juros na inflação.

"O Copom reafirma que a política monetária [definição dos juros para atingir as metas de inflação] tem flexibilidade para reagir a riscos de ambos os lados", acrescentou. Deste modo, não descarta subir os juros no futuro se a inflação ficar pressionada.

Definição da taxa de juros

A definição da taxa de juros pelo BC tem como foco o cumprimento da meta de inflação, fixada todos os anos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Para 2018, a meta central de inflação é de 4,5%. Para 2019, é de 4,25%. O sistema, porém, prevê uma margem de tolerância, para cima e para baixo. Isso significa que a meta não seria descumprida pelo Banco Central caso a inflação neste ano ficasse entre 2,5% e 6,5%.

Normalmente, quando a inflação está alta, o BC eleva a Selic. A expectativa é que a subida da taxa também eleve os juros cobrados pelos bancos, ou seja, que o crédito fique mais caro e, com isso, freie o consumo, fazendo a inflação cair. Essa medida, porém, afeta a economia e gera desemprego.

Quando as estimativas para a inflação estão em linha com as metas predeterminadas pelo CMN, o BC reduz os juros. É o que está acontecendo neste momento. Para 2018 e 2019, o Banco Central estima que a inflação, medida pelo IPCA, vai somar 3,8% e 4,1%, respectivamente.

A taxa definida pelo BC influencia nos juros praticados pelos bancos. Entretanto, apesar de a Selic estar na mínima histórica, os juros bancários seguem elevados. Em janeiro (último dado disponivel), as taxas do cheque especial e do cartão de crédito rotativo estavam acima de 300% ao ano.

 

Publicado em Notícia

Copom se reúne nesta quarta e deve baixar juro para 6,75% ao ano

Se confirmado, será o 11º corte seguido na Selic. Expectativa de economistas ouvidos pelo Banco Central é de que, após este corte, taxa ficará estável até o início de 2019, quando voltará a subir.

Por Alexandro Martello e Yvna Sousa, G1 e TV Globo, Brasília

07/02/2018 06h00 Atualizado há 1 hora

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reúne pela primeira vez no ano nesta quarta-feira (7) e deve baixar a taxa básica de juros de 7% para 6,75% ao ano, de acordo com expectativa do mercado financeiro. A decisão do colegiado será divulgada após as 18h.

Se confirmada a previsão dos economistas, a Selic será reduzida pela 11ª vez consecutiva e alcançará o menor patamar desde a adoção do regime de metas para a inflação, em 1999. Também será a menor taxa de juros de toda a série histórica do BC, iniciada em 1986.

A expectativa do mercado financeiro é colhida semanalmente pelo Banco Central, que depois a disponibiliza por meio do relatório Focus. De acordo com o mais recente relatório, os analistas esperam que o corte nesta quarta será o primeiro e o último de 2018, e que a Selic permanecerá no patamar de 6,75% até o começo de 2019.

A partir daí, preveem os economistas, os juros devem voltar a subir e atingiriam 8% ao ano no fechamento do ano que vem.

Como o BC define a Selic

A definição da taxa de juros pelo BC tem como foco o cumprimento da meta de inflação, fixada todos os anos pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Para 2018, a meta central de inflação é de 4,5%. Para 2019, é de 4,25%. O sistema, porém, prevê uma margem de tolerância, para cima e para baixo. Isso significa, por exemplo, que a meta não seria descumprida pelo Banco Central caso a inflação neste ano ficasse entre 2,5% e 6,5%.

Normalmente, quando a inflação está alta, o BC eleva a Selic. A expectativa é que a subida da taxa também eleve os juros cobrados pelos bancos, ou seja, que o crédito fique mais caro, e com isso freie o consumo, fazendo a inflação cair. Essa medida, porém, afeta a economia e gera desemprego.

Quando as estimativas para a inflação estão em linha com as metas predeterminadas pelo CMN, o BC reduz os juros. É o que está acontecendo neste momento. Para 2018 e 2019, o mercado estima um IPCA de 3,94% e de 4,25%, respectivamente.

Tensões nos mercados

A reunião do Copom acontece em um momento de maior tensão nos mercados financeiros, que reagem a dados, divulgados na semana passada, de que os salários avançaram 2,9% nos Estados Unidos em janeiro - a maior alta anual em 9 anos.

Essa variação pode indicar que as pressões inflacionárias estão mais fortes nos EUA e influenciar as futuras decisões do Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA) sobre a taxa de juros americana, que, segundo analistas, pode acabar subindo mais do que os 0,75 ponto percentual esperado até o momento para 2018.

Uma eventual alta maior dos juros influencia negativamente o mercado de ações do país e de outras nações. Isso porque esse aumento representaria mais juros pagos nos títulos públicos dos EUA, atraindo recursos de todo mundo, inclusive do Brasil.

Uma das consequências para a economia brasileira pode ser a pressão de alta sobre o dólar, o que não é bom para a tendência da inflação nos próximos meses, pois os produtos e insumos importados ficariam mais caros. Quando isso acontece, geralmente há repasse para os preços internos.

Rendimento da poupança

Se confirmado o novo recuo da Selic nesta quarta, o rendimento da poupança também deverá cair a partir desta quinta (8).

Isso porque a regra atual, em vigor desde maio de 2012, prevê corte nos rendimentos da poupança sempre que a Selic estiver abaixo de 8,5%.

Nessa situação, a correção anual das cadernetas fica limitada a um percentual equivalente a 70% da Selic, mais a Taxa Referencial, calculada pelo BC. A norma vale apenas para depósitos feitos a partir de 4 de maio de 2012.

A medida visa evitar que a poupança fique mais atrativa que os demais investimentos, cujos rendimentos caem junto com a Selic. Sem o redutor, a poupança passaria a atrair recursos de grandes poupadores, que deixariam de comprar títulos públicos.

Se o juro básico da economia recuar para 6,75% ao ano, a partir desta quinta a correção da poupança passará a ser de 70% desse valor - o equivalente a 4,725% ao ano, mais Taxa Referencial. 

Publicado em Notícia

Juro subirá lá fora, e políticos não sabem o tamanho da encrenca

Se caminhamos para taxas maiores nos países ricos, reformas ficam mais urgentes

FOLHA DE SÃO PAULO, 7.fev.2018 às 2h00

Alexandre Schwartsman

Tivemos na semana passada a última reunião do Federal Reserve sob o comando de Janet Yellen, quando se decidiu pela manutenção dos juros básicos americanos entre 1,25% e 1,50% anual, sinalizando, porém, que a taxa subirá durante o ano, ainda que deva se manter abaixo do nível que, espera-se, prevalecerá no longo prazo.

Apesar da mensagem tranquilizadora, o mercado de títulos começa a mostrar preocupação: a taxa de juros para dez anos, talvez a mais importante do sistema solar, subiu de algo como 2,5% ao ano para pouco mais de 2,8% anuais do começo de janeiro para cá, o nível mais elevado desde o observado no fim de 2014.

Não se trata, à primeira vista, de um grande movimento e, para falar a verdade, é ainda um nível historicamente baixo (para os mais curiosos, a série desde 1953 pode ser vista aqui, mas já foi suficiente para afetar não só o dólar no Brasil mas as Bolsas em todo o mundo, que sofreram forte queda.

O fato é que os dados mostram a economia americana crescendo na casa de 2% a 2,5% ao ano desde 2010, suficiente para reduzir de modo persistente a taxa de desemprego, que caiu de 10% ao final de 2009 para 4,1% nos últimos quatro meses, nível que parece representar o pleno emprego naquele país.

Apesar de outras medidas (mais amplas) de desemprego sugerirem a possibilidade de alguma folga escondida no mercado de trabalho americano, tal folga, se existir, também não é das maiores. Não por acaso, o salário médio por hora subiu quase 3% em janeiro deste ano, o ritmo mais forte desde junho de 2009. De forma consistente, as projeções no mercado de títulos para a inflação subiram para pouco mais de 2% ao ano no horizonte de dez anos.

É bom deixar claro que não estamos falando de gigantesca aceleração inflacionária; no entanto, na comparação com os últimos anos, período em que salários não pressionaram a inflação, trata-se de uma dinâmica visivelmente distinta.

O receio, portanto, do mercado de renda fixa, que se exprime na forma de juros mais elevados, parece refletir a percepção de que a reação da política monetária terá que ser um tanto mais rápida, e mais vigorosa, do que as três elevações de 0,25% que se imaginavam como o cenário mais provável para 2018.

Esse risco se agrava na presença do estímulo proveniente do corte de impostos aprovado no fim do ano passado, que deve elevar a demanda no curto prazo ainda mais rapidamente.

Até agora vivemos um momento muito particular da economia global: conjugamos crescimento forte e disseminado com liquidez abundante, que estimula a busca por taxas de retorno (e risco) mais elevadas.

O primeiro ajuda o desempenho das nossas exportações, portanto nosso equilíbrio externo; já a segunda tem anestesiado investidores no que se relaciona à paralisia reformista mesmo em face de um sério desequilíbrio fiscal no país.

É bom ter em mente que essa janela não permanecerá aberta indefinidamente. Se, de fato, estamos observando os primeiros movimentos da transição para um mundo mais normal, com taxas de juros mais elevadas nos países ricos, reformas se tornam ainda mais urgentes.

Pelo andar da carruagem, contudo, o mundo político ainda não se deu conta do tamanho da encrenca. Quando perceber, poderá ser tarde demais.

Alexandre Schwartsman

Ex-diretor de Assuntos Internacionais do BC, é é doutor em economia pela Universidade da Califórnia.

 

Publicado em Notícia